Doritos na cara.

21.8.17


Maquiagem, ah, doce maquiagem, que pode fazer você parecer com uma princesa (ou a Morticia da Família Addams). Querendo ou não vamos passar por uma fase da treva onde a gente ACHA que sabe se maquiar, mas no final, só está pagando mico mesmo, e por mico digo batom no dente, base derretendo e esfumaçado preto que mistura com suor e vira um cosplay de soco no olho. A parte boa é que você, algum dia da vida, vai encontrar o estilo perfeito, depois de muitos delineados de gatinhos tortos e sombra rosa fluorescente.

O primeiro contato com a maquiagem é geralmente na infância, aqueles batons com cheirinho de fruta e sombras rosas (que no final do dia você só está com um olho pintado porque coçou o outro). Mas a era das trevas começa quando você está entrando na adolescência e quer ousar! (Uii, ousada!). Ousadia que pode resultar nessa coisa feia aqui.

Já sei, vocês querem que eu vá logo para a história, então aqui vamos, separe um Doritinhos e uma Coca-Cola (ou água, sei lá, o povo hoje em dia tá mandando todo mundo beber água, então né... Hidrate-se).

Depois daquele susto do primeiro dia de aula do sexto ano, eu e a Mirella demoramos um tempo para nos recuperar da indignação.

Nos olhávamos no espelho todo dia tentando ver se o nosso corpo tinha mudado como o da Nadine, mas nada, éramos duas tábuas (a Mirella, eu parecia uma batata mesmo). Sério, até hoje não entendo como elas pareciam ser três anos mais velha e nós três anos mais novas do que realmente éramos. Muita injustiça! (Error 404 bundinha not found).

Já estávamos a ponto de enlouquecer e decidimos que faríamos alguma coisa, sabe, para dar uma mãozinha na evolução do nosso corpitcho. Então fizemos o que toda garota sonhadora que quer ter um corpo escultural faz: fomos até uma academia perguntar pelo preço das aulas (háháháhá, não sei o que eu estava pensando, nem hoje que eu posso eu faço exercício). Descobrimos que deveríamos ter no mínimo quinze anos para entrar na academia, ficamos mega bravas e queríamos estrangular o personal trainer, mas até que foi bom não fazer, se não ficaríamos com o corpo todo deformado e isso interferiria no nosso crescimento (ficar mais anã do que eu já sou? Não, obrigada).

Então recorremos ao nosso plano B, B de beleza! (Ou de bobocas, como preferir). Primeiro tentamos com o nosso cabelo, eu pedi uma progressiva e a Mirella pediu mechas coloridas, escutamos um belo de um NÃO que foi como se esmagassem nossos sonhos. Nossos pais queríamos que fôssemos feias? Era isso? Foi triste, doeu, quis morrer, mas mentes brilhantes sempre têm uma carta na manga.

Não satisfeitas com isso, pedimos uma coisa mais simples, participar de uma aula de maquiagem em um bazar que ficava perto de casa. E por um milagre, deixaram! A gente pulava de felicidade, finalmente nós iríamos ficar bonitas. Se a Nadine e as amigas podiam usar maquiagem, por que nós não?

Estávamos muito ansiosas e levamos nossa mesada para comprar a maquiagem depois da aula (dinheiro que eu poderia ter gastado com comida!). A senhora que nos ensinou deveria ter lá os seus sessenta anos, estava bem rebocada e parecia ser profissional (só parecia mesmo). Como eu e a Mi éramos as únicas adolescentes ali, a moça falou que nos ensinaria uma maquiagem especial (háháháhá). Começava com uma camada de branco nos olhos, outra de AZUL/VERDE e outra de preto, depois lápis de olhos, gloss e blush (muito blush). Às vezes acho que ela fez isso por maldade...

Depois de passar por todo aquele processo de base e reboco na cara, nós ACHAMOS que estávamos lindas, nos sentíamos a própria Gisele Bündchen ou até mesmo a Angelina Jolie. Tiramos altas fotos com nossa câmera fazendo o famoso bico de pato, que nos aproximava mais do Patinho Feio do que do Cisne.

Então decidimos que iríamos assim no dia seguinte, acordaríamos cedinho e faríamos essa mesma maquiagem para sentir-nos bonitas pelo menos uma vez na vida. Mirella dormiu na minha casa e no dia seguinte fomos juntas para a escola.

Estávamos ansiosas, nos arrumamos e até tentei dar um jeito no meu cabelo incontrolável com uma trança. Minha mãe nos encarou assustada e até perguntou se a gente tinha certeza, na hora eu achei que ela estava assustada com a nossa beleza, mas ela estava assustada com a nossa cara mesmo.

Assim que colocamos o pé na escola, todos os olhares se voltaram para a gente, sentia pela primeira vez, toda a atenção em nós. Foi como aquela cena em câmera lenta, pessoas cochichavam e apontavam discretamente, a Mirella caminhava com cabelos ao vento e eu com toda a minha pose de modelo.

— Acho que deu certo! — Mirella falou animada quando fomos para o nosso lugar no fundão da sala. — Todo mundo olhou para a gente, devemos estar lindas mesmo.

— Finalmente não somos as feias e esquisitas da sala.

— Paulina, Mirella! Que maquiagem divina! — A Falsiane chegou correndo e sentou do nosso lado, estávamos tão contentes com a nossa maquiagem que nem lembramos que ela mais mentia do que falava a verdade.

— Você viu? Aprendemos a fazer ontem com uma maquiadora profissional — comentei com ela que pareceu segurar a risada.

Ignoramos a existência da Falsiane quando os outros alunos começaram a chegar, todos eles nos olhavam e nós duas estávamos nos sentindo tão bem, mas tão bem. Queríamos saber a opinião do Pedro, mas ele chegaria só depois do lanche porque faria alguns exames, mas isso não importava, finalmente estávamos lindas.

...

— Vocês vão à alguma festa de halloween? — Escutei alguns dos meninos bagunceiros dizer lá da frente da sala, mas é claro que não poderíamos ser nós duas, afinal, estávamos di-vi-nas.

— Acho que estão fazendo cosplay, um bem ruim por sinal. — Outro menino falou e a Mirella me olhou bem confusa.

— Li, você acha que estão falando da gente? — Ela se esticou para ficar mais perto de mim.

— Acho que não, de-deve ser co-coisa da nossa cabeça mesmo.

— Tanta coisa para fazer para ficar mais bonita e elas vão usar reboco de palhaça? Deveriam ter depilado esse bigode, isso sim. — Dessa vez foi a Bárbara, amiga da Nadine, que falou para os meninos.

— Paulina... — A Mirella já queria sair correndo para lavar o rosto no banheiro.

— Não, Mi. Vamos ficar e mostrar que isso não afeta a gente, se sairmos correndo e chorando, vamos ficar lembradas na história dessa escola. É só a gente sobreviver a esse dia e amanhã voltamos ao normal como se nada tivesse acontecido.

— Não sei não, Li. Ainda temos que ir para o intervalo e tem tanta gente lá.

Aí que a cagada estava feita, todos, mas TODOS mesmo iriam ver a nossa cara pintada. Iríamos pagar um micasso daqueles e tudo para se sentir mais bonita. Mas eu respirei fundo e continuei com o meu plano de fazer a Egípcia (melhor ideia que eu pude ter tido naquela época).

Fomos para o intervalo como se nada estivesse acontecendo, as pessoas olhavam e comentavam, mas nós mantínhamos a pose, não daríamos o gostinho do desespero para eles. Não podíamos dar mais combustível para uma casa que já estava em chamas. Nos fizemos de plena e por sorte, as pessoas tinham perdido o interesse na gente.

Isso até que o Pedro chegou correndo e deu um gritinho quando nos viu, estava dando a loka.

— MINHANOSSASENHORA ninguém avisou que Doritos é para comer e não para passar na cara?

— Muito obrigada pela parte que me toca, Pedro — respondi revirando os olhos. Era só o que me faltava.

— Meninas, o que foi que aconteceu com vocês? Foi um desafio, um castigo, estão tentando conquistar ou espantar o crush?

Eu não sabia se ria ou se chorava naquele momento, toda essa situação era tão bizarra, nós havíamos nos esforçado tanto para ficar mais bonitas que colocamos reboco até não dar mais na nossa cara, e no final, estávamos ridículas e seríamos lembradas por causa disso por algum tempo. ENTÃO NUNCA PASSEM SOMBRA AZUL, NEM VERDE, NEM ROSA CHOQUE E NEM BATOM LARANJA. (Eu parecia a logo da PBKids).

— Foi um experimento nosso que deu errado, agora para de zoar a gente Pedro! — A Mirella deu um tapinha no ombro dele. — Foi tudo ideia da Li, e agora a gente vai continuar assim até o final do dia. — Senti raios saindo dos olhos dela enquanto me encarava.

— Entendi, melhor se fazer de desentendida do que descer do salto quinze. Claro, entendo. Mas vocês deviam ter se olhado no espelho antes de sair de casa.

A única pessoa que não riu, não apontou o dedo para a gente ou sequer fez comentários maldosos, foi a Nadine. Nós nunca entendemos o motivo, mas isso fez a gente pensar que talvez ela pudesse ser uma pessoa legal apesar de ter as amigas que tinha. Quando o dia terminou, nós estávamos cansadas de ouvir tanta besteira, claro que ninguém falou na nossa cara, mas sabíamos que era para a gente.

Cheguei em casa e me tranquei no quarto, chorei e vi todo o rímel escorrer pelo meu rosto, bem estilo filme dramático. Limpei o rosto sentindo minhas bochechas arderem de tanto que eu esfregava aquele algodão com demaquilante, mas passou. A raiva e a vergonha passaram, sempre passam.

No dia seguinte eu levantei super desanimada para ir para a escola. Não queria ver ninguém, mas fui mesmo assim. A Mirella não estava com uma cara muito boa, os olhinhos estavam inchados, como os meus, a diferença é que eu havia passado um pouco de rímel para disfarçar.

Ninguém pareceu notar a diferença e nem comentar, estávamos invisíveis de novo e tudo havia voltado ao normal, isso até que eu senti alguém cutucar o meu ombro quando estávamos sentados prestando atenção na aula de matemática.

Olhei para trás e lá estava o Marcos, um dos meninos do grupinho dos bagunceiros. Ele era meu amigo, ou alguma coisa parecida, a gente conversava porque sempre acabava sentando perto um do outro, já havíamos feito alguns trabalhos juntos e conversávamos por internet às vezes sobre alguns jogos e séries.


— Você fica bem mais legal sem essa maquiagem toda.  Ele falou me surpreendendo.

Eu fiquei roxa, azul, lilás, turquesa e vermelha naquela hora. Abri um sorriso enorme involuntário. Ele estava me elogiando!

— Obrigada.

Virei para frente tentando esconder o sorriso idiota que eu tinha no rosto, as minhas bochechas queimavam. (Detalhe, ele só falou que eu ficava “legal”, imagine se tivesse falado “linda”, ai eu morria de vez. Adolescência é estranha mesmo).


No fundo, essa experiência estranha com a maquiagem valeu à pena, aprendi que tudo o que é em excesso é ruim, que menos é mais. Que a gente não precisa tentar cobrir aquilo que acha que é uma falha só para tentar contornar aquilo que somos de verdade. Você não precisa fazer uma coisa só porque outra pessoa também faz, só tente ser verdadeiro com você mesmo. E querendo ou não, a adolescência é uma fase cheia de mudanças e mais cedo ou mais tarde o seu corpo, mente e rosto vai mudar. Você só tem que aprender a lidar com essas mudanças ou com a lentidão delas.


Capítulo anterior.                                             Até o próximo capítulo!

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