Primeiro dia de aula.

14.8.17



Todo primeiro dia de aula causa uma sensação na gente, alguns querem ir logo para a escola matar saudade dos amigos e outros desejam dar um restart nas férias. Eu poderia falar de qualquer primeiro dia, o do oitavo ano, o do terceiro, o do nono. Mas acho que o ano mais difícil de mudar foi o do sexto.

E sabe o motivo?

No sexto ano é aquela transição de Fund. I para Fund. II. Você sai do topo, do Nirvana, da sala mais velha do período; as criancinhas do primeiro ano acham as do quinto o máximo, é quase como se você sentisse que mandasse na escola e aí PUFF. Você tem que ir para o sexto ano e voltar a ser a menor sala do período, e os alunos mais velhos não são só quatro anos mais velhos que você, eles vão ter até barba! Então você vai ter medo de mostrar a sua criancinha interior no meio de gente tão grande.

Sem falar que é tipo uma passagem de infância para pré-adolescência, que é quando você não é nem criança e nem adolescente, e a sua cabeça fica confusa (quase vira um pudim). Você não tem certeza se pode gostar de Barbie e maquiagem ao mesmo tempo. Ainda gosta do lanche da sua mãe, mas é mais daora comprar na cantina, etcetera, etcetera...

Também tem o julgamento dos coleguinhas que sempre querem mostrar o quanto são crescidinhos e adultos. A gente é trouxa mesmo, acha que ser adulto é bom, que nada! Falo por experiência própria, mas isso é história para outro livro. Sei que falar “aproveite ao máximo sua infância” ou “não tenha pressa em crescer”, não vai adiantar nada, você vai querer ser “grande” de qualquer jeito e vai quebrar a cara como todos nós quando tiver os seus 20 anos. Lei básica da vida.

Mas vamos ao que interessa...

Meu primeiro dia de aula no sexto ano até que começou bem. Levantei da cama toda desesperada, iria estrear a minha mais nova mochila e estava enfiando todos os meus cadernos apressada (coisa que eu deveria ter feito no dia anterior, mas quem liga?). Eu estava alucinada pela ideia de finalmente usar mochila de gente grande (adeus mala de rodinhas e olá dor nas costas até o terceiro ano!).

Depois de colocar o uniforme e de me tornar uma tartaruga ambulante com a mochila nas costas, tive uma pequena conversa desagradável com a minha mãe sobre a lancheira. Fala sério, ela queria que eu levasse a minha lancheira COR DE ROSA DAS MENINAS SUPER PODEROSAS! Olha o mico! Eu tive que falar para ela que levaria o pote com pão e o suco de caixinha na parte da frente da mochila, lancheira era uma coisa tão ultrapassada para alguém que estava no sexto ano. No fim, consegui convencê-la e fomos para a escola de carro.

Eu sentia minhas mãos congelarem e pernas tremerem, estava tão ansiosa para finalmente estar no meio dos “grandes”, eu me sentia grande (mesmo sendo uma pigmeia). Minha mãe me encarava sorridente, toda orgulhosa da filhinha crescida, e eu queria descer logo do carro e encontrar os meus amigos.

Eu havia combinado de esperar por eles na porta da escola, assim entraríamos juntos e não nos perderíamos no meio de tanta gente nova. Vou apresentar os meus amigos para você, já aviso que não desenho muito bem.
Quando eu os vi foi aquela gritaria, nos abraçamos e depois entramos na escola, no meio daquele povão. Ficamos assustados com a quantidade de gente, alunos, professores, coordenadores e ninguém fazia fila! Nos sentamos em um dos bancos do pátio que parecia ser um lugar seguro e já começamos a falar sobre as nossas expectativas.

— Eu espero que entre um menino bonito na sala esse ano! — A Mirella falou encarando os meninos do terceiro.

— Só um? E eu?! — perguntei com os olhos arregalados.

— Tudo bem, dois. Um para você e um para mim.

— Não sei vocês, mas esse povo do Ensino Médio tem tudo cara de mais velho. São tão adultos. — O Pedro interrompeu a nossa conversa sobre o crush dos sonhos.

— E são tão lindos. Será que o nosso terceiro vai ser assim, cheio dos gatinhos? — A Mirella apontou para alguns meninos com o queixo.

— Vish, não olha agora, mas a Falsiane — O Pedro olhou discretamente para trás. — está chegando.
Falsiane (vamos chama-la assim, ninguém precisa saber o nome dela de verdade) era uma amiga nossa que era legal, até que ela ficou meio insuportável, mas ainda conseguimos sobreviver a ela até o oitavo ano.


— Gente, gente, babado forte! Sabe a Nadine? — Ela empurrou a gente para poder sentar no banco — Fiquei sabendo que ela ficou com vários meninos lá na rua do prédio dela. Acreditam nisso? — Eu e a Mirella trocamos olhares enquanto a Falsiane falava, sabíamos que não deveríamos acreditar em tudo o que ela falava. — Minha meta para esse ano é perder o BV e vocês também! — Nós três a olhamos assustados. 

Não éramos o tipo de grupo que se preocupava muito com essa coisa de beijo, éramos os nerds da sala, o povo “artístico” que os outros chamam de “estranhos”. Ainda sonhávamos com aqueles encontros românticos de filmes e amor à primeira vista. (Háháháhá, tô rindo para não chorar, sorry).

— Vamos nos preocupar com isso depois, Falsiane. Temos o ano inteiro e muitas coisas podem acontecer — falei tentando acalmar os ânimos dessa louca.

— Afe! Não me venha com essa história que somos muito novos, saiba que minha prima está no sétimo ano e já saiu para várias matinês. — Que bom para ela.

Nessa hora o sinal tocou e vimos aquela multidão de gente ir para as escadas, estava difícil de andar naquele mar de gente bem mais alta e grande que nós, mas achamos a sala do sexto ano e entramos todos desengonçados. Sentamos nas primeiras mesas formando um quadrado, o fundão já estava sendo ocupado pelos meninos bagunceiros que também guardavam lugar para as meninas populares que ainda não haviam chegado.

O ruim da minha escola era que nós (nerds) sempre procurávamos sentar na frente e os “descolados” queriam o fundão, mas os professores SEMPRE separavam a gente e no final eu acabava sentando sempre no fundão. Só torcia mesmo para pegar um lugar na parede, o resto não importava desde que eu pudesse me encostar ali e ficar confortável (além de irritar o amigo da frente chutando a cadeira MUAHAHAHA).

Estávamos conversando bem animados, com a esperança de conhecer professores legais (primeira vez que teríamos mais de dois professores entrando e saindo da sala) e então fomos ofuscados pela entrada dela.

Nadine era o tipo de menina que você sempre quis ser ou tem um ódiozinho; era bonita, inteligente, popular, queridinha dos professores e sempre tinha tudo o que queria. Era até bizarro pensar que ela estava na mesma sala que você quando parecia ser bem mais velha e chamava a atenção até dos meninos das outras salas.

E é incrível como esse tipo de gente parece ficar cada ano mais bonita. Deve ser magia negra, pacto com o demo, eu sei lá!

Só sei que no quinto ano a Nadine não tinha peito e nem bunda, e de repente, nesse instante que ela passou pela porta, estava toda evoluída! Ganhou peito, bunda, fez a sobrancelha e usava até um pouco de maquiagem. E eu nessa época nem sabia me depilar, nunca havia usado um absorvente!

É nessa hora em que a gente percebe que muitas coisas podem mudar nas férias, é uma loucura o que a puberdade pode fazer de bom com certas pessoas e de ruim com outras (tipo eu que estava com três chifres prontos para explodirem na minha testa).

— O que foi que aconteceu com a Nadine? — sussurrou Mirella para nós três.

— Aposto que deve ser enchimento! — respondeu Falsiane.

— Na bunda?! — Eu franzi a testa. Será que existe calcinha com enchimento?!

— Gente, não olha agora, mas acho que as amigas da Nadine também tomaram da mesma água mágica que ela. — Pedro apontou para a porta da sala.

E lá estavam entrando as amigas da Nadine com seus cabelos longos ao vento, pele perfeita, um pouco de maquiagem e sorrisos perfeitos. Cada uma tinha ganhado uma coisa diferente, uma tinha bunda, outra tinha coxa e outra tinha peito. E eu lá, igual a uma tábua de passar roupa.

Claro que os meninos não paravam de olhar para elas e isso sempre deixou a gente meio mal. Poxa, eu e a Mirella também éramos bonitinhas, porque os crushs sempre tinham que gostar das populares?

Depois dessa entrada triunfal, uma professora entrou na sala e se apresentou como a professora de português. O resto do dia foi assim, meio estranho, conhecemos quatro novos professores e ficamos o dia inteiro fazendo atividades para nos conhecermos melhor. A hora do lanche foi bizarra, meu grupo ficou num canto para não sermos esmagados pelos grandes, mas as populares e os bagunceiros andavam por aí como se fossem os donos da escola, até fizeram amizade com um povo do oitavo ano.

Alguns meninos falavam que tinha nascido um fio de cabelo no peito deles (que era mais liso que bumbum de bebê) e as meninas falavam que já tinham comprado sua primeira maquiagem. Até o material escolar que antes era colorido e cheio de bichinhos, tinha ficado mais sério, cadernos de dinossauros viraram cadernos de times de futebol e carros, cadernos da Barbie viraram cadernos com temas de Paris ou da marca Capricho. Nada de canetas com pompom em cima!

Quando o último sinal bateu, eu encarei os meus amigos e sabia que a partir daquele ano tudo mudaria. Nós passaríamos a olhar para as pessoas de outro jeito e principalmente para nós, começaríamos a nos preocupar com coisas que nunca antes nos incomodaram como o peso, a aparência, o cabelo, jeito de andar, falar, de brincar. Estaríamos conscientes de cada coisa “errada” e não poderíamos agir como crianças, pelo menos não na frente dos coleguinhas, que seriam cruéis e apontariam seus dedos julgadores para a gente. Pré-adolescentes podem ser perversos na hora de debochar de um colega.

Mas sabe de uma coisa? Tudo isso é normal, a mudança, descobrir coisas novas e errar. E muitas vezes, essas pessoas que apontam o dedo e riem de você, também estão insatisfeitos por dentro e aprendem mais cedo ou mais tarde a colocar essa máscara de superioridade falsa. Ninguém que passa por essa fase está 100% feliz, nem mesmo as populares.

Então, aproveite, se divirta, seja você mesmo não importa o que aconteça. Lembre-se que você não precisa provar nada para ninguém, que cada um tem um tempo diferente para aprender e fazer coisas. Tentar se mostrar fazendo coisas erradas e perigosas é ridículo, mas você só vai aprender isso quando crescer, porque nessa fase, nós sempre queremos ser mais e acabamos fazendo coisas que não queremos.


Só seja forte e aproveite a adolescência. Nos encontramos no próximo capítulo


Capítulo anterior.

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2 comentários

  1. Olá, tudo bem? Gostei muito do texto, sempre fui ansiosa pra início de aulas rsrs

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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    1. Estou ótima e você? :3 Fico feliz que tenha gostado do texto <3

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