Enfim encontrei...

26.2.18



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Eu a buscava entre as xícaras de café e as noites mal dormidas. Talvez estivesse presente nas olheiras ou no cabelo bagunçado. Quem sabe entre os risos forçados ou sob as unhas desgastadas. Eu tentava entender em qual lugar ela havia se enfiado, justo quando eu mais precisava.

Esticava os braços tentando alcança-la nas prateleiras do meu interior, mas sabia que ela se esconderia atrás dos grandes potes de sorvetes recheados de feijão, rindo das minhas expressões repletas de falsidade. Desamparada, desesperada ou simplesmente decepcionada?

Onde está a minha barra de chocolate? O meu sorvete de flocos? O meu frozen yogurt cheio de frutas e gummy bears coloridos?

Eu piscava cada vez mais forte para acordar e fugir desse pesadelo, mas ela não estava ali para me ajudar. Decidiu observar com um balde de pipoca no colo como se dissesse: “Te vira minha filha, estarei de férias por um bom tempo”.

Eu, tonta, insistia em buscá-la ao invés de tentar resolver tudo sozinha. Perdia meu tempo tentando resgatar uma parte de mim que assistia, burrada atrás burrada, de camarote. Já podia imaginá-la, vestido longo com um grande decote em V e, na mão, uma taça de vidro com suco de uva, fingindo tomar do mais fino vinho. Uma vadia fria e egoísta.

Eu repetia a mim mesma que não precisava de sua existência, mas sentia o borbulhar em seus olhos e o veneno escorria por minha boca sem que eu ao menos percebesse. As pessoas se afastaram, não entendendo o que a santa com língua de víbora faria a seguir. Isolamento foi o que iniciou tudo isso e eu insistia em voltar para ele, quase como uma casa aconchegante que sempre estaria de portas abertas para mim. Quem sabe assim, eu pouparia os outros do que tinha que carregar sozinha.

A vadia se remexia na cadeira da ala VIP, queria ver o circo pegar fogo, mas fugia no instante em que as chamas se descontrolavam e tentava compensar com rios de lágrimas que eu não era capaz de controlar ou sequer entender. Era a bruxa adormecida, parte do meu sexto sentido que resolveu esconder-se na escuridão.

Buscava por ela uma e outra vez, ignorando as gotas salgadas que me havia dado de presente, mais e mais portas se fechavam, fazendo com que fosse difícil de alcança-la. Sua fortaleza estava em constante construção, desde o dia em que me vi sozinha e percebi que era diferente dos demais. As portas, que antes eram de plástico colorido, agora eram grandes portões de ferro que rangiam só para causar medo em quem se aproximasse.

Estiquei o braço diante daquela porta e apoiei os dedos sobre o leitor de digitais, afinal, eu ainda era eu. Os grandes portões se abriram, ela não poderia mais se esconder atrás dos potes de sobra, e suas férias estavam com os dias contados. Enfim eu encontrei o que tanto buscava dentro do meu próprio ser, a vadia não passava de um gatinho assustado vestindo a pele de uma víbora venenosa, o que significava que eu teria que aprender a lidar com os problemas sozinha para que o gatinho não rasgasse a própria pele.



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