Splish Splash.

19.3.18


Splish Splash

É engraçado como a gente sempre se preocupa com coisas bestas quando está na adolescência, tipo não usar a mesma roupa muitas vezes ou se as meias no sutiã não estão aparecendo. A gente faz o possível e o impossível para tentar se encaixar, inclusive pagamos muitos micões no processo, mas o que eu vou contar aqui é a pior das experiências possíveis dessa vida, que faz com que você fique completamente maluco! É gente enchendo o seu saco para lá e para cá, paranoias por todos os lados e um pensamento que o persegue toda vez que você sai com os amigos, pensamento que diz “é hoje, é hoje, é hoje” e no final não acontece nada, seja por medo ou simplesmente porque ninguém veio falar com você.  Hoje vamos falar de:


Quando somos crianças, nem ligamos muito, falamos “eca” e parece ser uma coisa beeem estranha que os adultos fazem, afinal, quem teve a ideia de colocar a língua na boca da outra pessoa? É tipo uma troca de baba, o que estavam procurando ali dentro? Cárie?? ENFIM, nós crescemos e assuntos do tipo “quando você vai perder o BVL?” são bem comuns, o que pode ser muito chato para muita gente, é como se os BVL e os não BVL se separassem formando a sua própria seita de trocadores de saliva, deixando os outros de lado.

E nós ficamos alucinados por essa ideia, porque a vizinha já beijou, o outro também e aquela da rua de trás já está namorando. Enquanto isso, você está aí, imaginando o dia em que algo do tipo vá passar. Eu já até cheguei a pensar que morreria sem ter beijado alguém, mas essas coisas loucas sempre passam pela nossa cabeça. Tudo depende do tipo de primeiro beijo que você quer, já vou dizendo que a maioria é bem vergonhoso e estranho, tem gente que está desesperada e pega o primeiro tribufu que aparece, outros saem “pegando” qualquer um que encontrou na baladinha e outros demoram mais, porque querem que seja algo especial.

HÁ HÁ HÁ (rindo para não chorar).

Hollywood vende uma imagem de que o primeiro beijo é especial, cheio de flores e que você vai ficar com o cara dos seus sonhos logo de primeira, que vai ser lindo e nem um pouco estranho, com direito a música de fundo e um romance meloso daqui para frente, mas é exatamente o contrário, meus amores! (Confesso que eu gritei horrores com o primeiro beijo da Sam e do Freddie, mas gritei muito mais no iOMG, #seddie). Ok, não é tão ruim, cada experiência é diferente e é até engraçado às vezes. E o melhor de tudo é que você vai lembrar disso para sempre e será uma boa memória, não importa se no momento foi muito constrangedor.

Mas vamos ao que interessa...

Era uma tarde calorosa de julho quando a Mirella veio até a minha casa e me trouxe um copo com gelo. Juro que olhei para a cara dela e falei “cadê o suco?”, mas ela tinha outros planos para aquele gelinho inocente, um que envolvia muita baba.

Vou explicar melhor, a Falsiane estava enchendo o nosso saco desde o primeiro diade aula do sexto ano por causa do BVL, já que a Nadine já tinha beijado (não confirmado até hoje) e a gente não. Então a Mirella se cansou e estava decidida a beijar um menino nesse ano, nem que ela precisasse sair com uma placa pendurada no pescoço que dizia “free beijos”. A sala inteira estava falando sobre isso, alguns diziam que tinham beijado e outros que estavam até namorando, claro que 99% estava mentindo só para manter a pose de bonzão, mas os olhares de desprezo que eles davam quando você dizia que era BVL era muito real e doía no ego. Pré-adolescentes estúpidos!

Enfim, estávamos nós duas no meu quarto, pensando em como a vida era muito esquisita.

— É fácil, dizem que é só tentar pegar o gelo com a língua. — A Mirella explicou tentando parecer convincente, e eu olhei para aquele cubo de gelo dentro do copo vazio, acho que eu preferia tomar uma Coca. — Vai Li, você não quer ficar para trás, não é? — Típica frase de pressão de adolescentes.

— Você sabe que eu estou esperando o cara especial! — (Acho que já deu para perceber qual tipo de beijoqueira era cada uma).

— Tá, mas você não quer dar um beijo horrível nesse seu boy dos sonhos, né? Tem que treinar. — Ela apontou para o copo que estava na minha mão.

Olhei mais uma vez para aquele gelo e respirei fundo. A Mirella já estava dando uns amassos ali, o que era bem bizarro, como se ela estivesse beijando um menino transparente, já que eu via a língua dela se contorcendo toda. Então foi a minha vez, afinal, a gente não quer fazer feio, né?

Era a coisa mais ESTRANHA, ENGRAÇADA E FRIA do mundo, foi nesse instante em que eu descobri que câimbra na língua existia, estava tão gelado que eu nem sentia mais a minha boca. Então, de repente, ficou aquele silêncio constrangedor com um fundinho de “chup chup” e nós explodimos em gargalhadas. Éramos duas idiotas beijando um gelo e não paramos por aí, meu bem!




Procuramos na internet, no Flogão para ser mais específica, e achamos a técnica da laranja. G-zuis, foi pior que o gelo! A Mirella pegou a maior laranja da casa dizendo que assim seria melhor, eu, a azarada, peguei justo uma laranja azeda que transformava o meu rosto em um cosplay do Corcunda de Notre Dame. Mordíamos e babávamos na coitada da laranja, o mais estranho era a consistência dos gominhos, não era nem um pouco natural, o pior de tudo era quando algum deles “explodia” e eu era contaminada com o gosto da laranja azeda maligna.

— Mi, é normal ficar com o rosto todo babado? — perguntei sentindo todo aquele grude no meu rosto inteiro que estava coberto de rastros de laranja, do queixo ao bigode e do bigode às bochechas.

— Gente, será que a gente sai com a cara toda babada mesmo?

E se fosse verdade? Credo, imagina só que bizarro. Baba fede...

— Acho que não, nos filmes eles não parecem babados, Mi.

— É, você tem razão, talvez a gente possa tentar outra coisa...

Voltamos para o computador ao som de Baba Baby da Kelly Key e encontramos a última técnica, já que as outras eram variações da laranja, diziam até para fazer com pêssego para fingir que estava beijando um menino com barba por fazer (HÁ HÁ HÁ). Outra técnica que não fizemos foi treinar no espelho, era o treino mais bizarro, porque víamos a nossa cara no espelho, como se estivéssemos beijando a nós mesmas, isso sim que é amor próprio.

A última técnica era a mais fácil e nojenta de todas, beijar a própria mão, que significava babar na mão inteira. E assim se foi a nossa tarde, treinando beijos na própria mão e com gelo (era a forma mais divertida). O engraçado é que nós nos divertimos imaginando como seria, claro que sempre dava aquele friozinho na barriga só de imaginar acontecendo de verdade e a gente se cobrou bastante nos próximos anos para que acontecesse logo, mas é uma coisa tão simples e comum.

A Mirella beijou primeiro que eu, em uma festa de aniversário que parecia uma baladinha, ela se entupiu de energético e parecia uma pipoca ambulante, acho que isso a deixou tão elétrica que teve coragem de beijar o Jorginho quando estávamos no oitavo ano. Sim, o Jorginho, aquele mesmo, o rival eterno e paixão secreta (não tão secreta) da Mirella e não, não foi ela que o agarrou, foi ele que chegou perto e perguntou se ela queria ficar com ele, em um segundo eles estavam lá e no outro desapareceram. Depois ela voltou com um sorriso bobo no rosto e o Pedro deu a louca gritando de alegria. Falsiane ficou com invejinha, eu lembro bem da cara de cobra dela, colocando a linguinha para fora e espalhando veneno por onde passava.

Depois disso as coisas ficaram mais difíceis para mim, quando a sua melhor amiga já beijou e você não, é meio zuado. Por que o assunto vai mudar completamente para beijos, baladas e meninos. Então você se sente meio de lado e é ruim sentir que está ficando para trás, que todos já fizeram algo que você ainda não fez. A gente até começa a perguntar se tem algo errado, se alguém um dia vai querer a gente ou qual é o problema, mas a verdade é que não há problema algum. A gente tem essa mania de comparar a nossa vida com a dos outros, mas cada um tem um tempo diferente e vivencia coisas diferentes, alguns demoram mais e outros menos. O que importa é que uma hora chega. Então não se preocupe se você for o último do grupo a beijar, é normal.

Eu beijei com quinze, era o meu crush do momento e eu estava toda serelepe, porque ele havia me convidado para ir ao cinema. A Mirella já havia gritado um “aleluia” pelo telefone, no dia anterior, quando eu comentei que sairia com o paquera e o Pedro havia ficado tão feliz que irradiava purpurina pela webcam do MSN. E eu estava com aquele frio na barriga, me perguntava o tempo todo quando iria acontecer e SE iria acontecer, talvez o boy magia fosse amarelar ou quem sabe sair correndo quando percebesse a loucura que estava fazendo (na época a minha autoestima era fundo-do-poço-estima).

Vimos todo o filme, eu com o coração quase saltando pela boca, porque o infeliz do crush não fazia nada e eu esperando igual a uma tonta, estava tão ansiosa que nem consegui prestar atenção no filme. Talvez fosse isso, o boy não tinha atitude e muito menos eu, talvez eu devesse voltar para casa e reatar o meu relacionamento com o cubo de gelo do sexto ano, pelo menos ele me fazia rir e gelava o meu refri.

E então, quando estávamos passando por dentro de uma exposição de flores, que ficava no grande pátio do shopping (aqueles lugares que mudam de atração todo mês), nós paramos para olhar uma parede coberta de flores, ele parou de frente para mim e apoiou uma das mãos na minha cintura. A única coisa que eu consegui pensar foi “AIMDSDOCÉUJESUSAMADOOHMYGÓDI QUE É HOJE QUE EU PERCO ESSE BENDITO BVL, É AGORA, É AGORA, É AGORA, É AGORA”.

Ele foi se aproximando aos poucos, de olhos fechados, e a minha pança já havia virado um polo norte. Eu, besta, ainda de olhos abertos o vi de olhos fechados e a boca abrindo aos poucos, nesse momento eu entendi porque todos fecham os olhos, cara de pré-beijo é engraçada, mas eu não ri, queria muito, mas não ri.

Sua boca encostou na minha e pronto. Não surgiu nenhuma música maravilhosa, nenhum pezinho de donzela foi levantado como nos filmes e o meu cabelo não esvoaçava em um vento refrescante da brisa da primavera.

A primeira coisa que pensei foi “ok, ele definitivamente não é uma laranja”. E BEIJAR É MUITO, MAS MUITO, ESTRANHO, você acha que vai ser molhado por causa da baba, mas é ao contrário, a língua é meio áspera e fica uma “acariciando” a outra e você não sabe ao certo onde colocar os braços, (definitivamente não é um cubo de gelo), O MAIS IMPORTANTE É CONTINUAR DE OLHOS FECHADOS. Então você se pergunta “era por causa dessa sensação bizarra que todo mundo fazia esse bafafá? Credo” e chega até a pensar “todos os beijos vão ser assim de bizarros?”, mas depois de um tempo você se acostuma e é um estranho bom, afinal, se não fosse uma coisa interessante de se fazer, ninguém sairia beijando as pessoas por aí, não é? Só lembre-se de respirar e de não sufocar a outra pessoa (ou de querer engoli-la viva).

O que eu queria dizer aqui nessa página do NÃO diário, é que nenhum primeiro beijo é perfeito e que treinar com uma laranja pode deixar você mais confiante, mas não chega nem perto do ao-vivo, por isso, não se preocupe porque é algo mais natural, não pense muito na hora. Outra coisa muito importante é que você não deve se apressar e querer fazer as coisas o mais rápido possível porque os outros já fizeram ou insistem para que você faça, afinal, ninguém ficou pressionando os primeiros que beijaram, foi natural, e você tem o direito do mesmo. Um dia vai acontecer, quando você menos esperar e quem sabe até com aquele crush que você tem ou com outra pessoa que você ainda não conheceu. O problema de querer apressar é que, muitas vezes, isso pode gerar situações desconfortáveis que acabam em memórias desastrosas, mas tudo depende de você. O importante é aproveitar a adolescência e não se pressionar tanto com o primeiro beijo, primeiro namorado... porque existem coisas muito mais importantes, como uma saída com amigos, um almoço em família, lembrar as pessoas o quanto você as ama e praticar algum hobbie que você gosta.

A vida é assim, cheia de experiências boas, ruins e engraçadas. Não tenha medo de seguir em frente e de esperar, se quiser esperar. No final, só sobram as nossas recordações para compartilhar com os amigos. Don’t worry, be happy.



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