Quando eu o vi...

2.6.18

Imagem por Aliceabc0, sob licença Creative Commons.


Estava irritada; não, irritada não: irritadiça. Um tanto quanto “nervosinha”. Tudo poderia acontecer naquele momento, e minha cabeça girava em um turbilhão de ideias e suposições que não me agradavam.

Então vi a mensagem no celular, a encarei de canto de olho tentando conter qualquer coisa que sentisse naquele momento.

Talvez não fosse nada, talvez não aconteceria nada, talvez não daríamos certo e voltaríamos para casa com aquele sentimento de decepção. Quem sabe havíamos subido as expectativas a um nível tão alto que a queda seria dolorosa.

Mas eu era assim, esperava sempre pelo pior, não queria acreditar que aquela seria a vez em que tudo daria certo. Porque era mais fácil desistir de tudo no meio do caminho, do que chegar ao final e deixar que a outra pessoa entrasse no emaranhado que eram meus sentimentos.

A mensagem no meu celular estava lá, uma carinha feita de dois pontos e um número três. Respirei fundo com o coração quase por saltar pela boca. Era a hora da verdade. Levantei da cadeira e caminhei indo em direção ao seu encontro.

Pessoas e mais pessoas me rodeavam, a rua estava lotada, culpa da Feira do Livro. Achava irônico o fato de dois escritores não terem seu primeiro encontro ali, acredito que, de maneira inconsciente, sabíamos que os livros nos distrairiam e ficaríamos submergidos em mundos paralelos.

Sinto uma vibração no celular. Uma mensagem sua. Coração saltando pela boca.

Aperto o play, esperando para que o semáforo de pedestre, na frente da Rural, fique branco. Olho para os lados, procurando-o e escutando a sua voz naquela gravação. Já o havia encontrado, um leve borrão do outro lado da rua por causa da minha miopia, mas eu sabia que era você, caminhando em passos curtos de um lado para o outro, mãos nervosas pelo cabelo, camisa azul.

Coração mais acelerado. Um sorriso bobo no rosto ao escutar suas instruções de como estava vestido, mas eu já sabia exatamente onde você estava.

Caminhava com meus passos naturalmente apressados, com medo de que não me reconhecesse. Será que eu era muito diferente das minhas fotos? Será que eu havia exagerado na maquiagem?

Atravessei aquele mar de gente até encontra-lo.

Você me buscava entre os diferentes rostos da multidão e logo seus olhos se arregalaram ao notar-me, checou novamente o celular e sorriu ao ver-me por primeira vez.

Cumprimentamo-nos com um beijo no rosto, meu coração acelerado e mãos levemente trêmulas de tanta animação acumulada no meu pequeno corpo.

A maneira que nos movíamos perto um do outro era estranha e desajeitada, estava claro que não sabíamos ao certo o que fazer ou quais eram os limites. A conversa fluía facilmente enquanto caminhávamos, os assuntos eram dos mais diversos.

Sorrisos, risadas e encaradas bobas de canto de olho.

Estávamos tão imersos em nós mesmos que caminhávamos sem direção, os bosques ao nosso redor não nos importavam, os patos dos lagos não foram notados e tampouco as flores do Rosedal.

Passamos por entre árvores e de Plaza Italia chegamos à Juramento em um piscar de olhos. Era muito fácil de perder-me em você e meu corpo se deixava levar por qualquer lugar que você quisesse ir.

Então, quase por terminar, nós nos sentamos na grama, em uma praça. A música ao vivo era perfeita e as crianças brincando ao nosso redor nos divertia nos levando a assuntos que aqueciam o meu coração.

Silêncio se fez entre nós. A brisa fresca, a música ao vivo, o sol aquecendo nossa face, cachorrinhos passando ao nosso lado. Olhares tímidos que se encontravam, sorrisos bobos e uma vontade enorme de fazer com que, pelo menos, nossos ombros se tocassem por um breve período de tempo.

Naquele instante, entre olhares de canto cruzados, foi quando eu o vi de verdade e soube que seria diferente, que você seria diferente de todos os outros, que nós seríamos diferentes de todos os outros “nós” que eu havia feito parte. Algo dentro de mim brilhava e se exaltava, como um grande sinal gritando que dessa vez daria certo. Meu sexto sentido nunca se enganava, e aquela esperança, que estava morta há tanto tempo, havia voltado. Talvez fosse você, depois de todos esses anos à espera.

Não entendia o que estava acontecendo comigo, nunca havia me sentido assim. Só sabia que precisava de você e que queria vê-lo de novo.



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3 comentários

  1. Que texto mais fofo Ayumi. Terminei de ler com aquela sensação de quentinho no coração. Achei bonito de ver que no final a fé no amor e na possibilidade de as coisas darem certo mudaram para ela de uma forma positiva.

    Blog Profano Feminino

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    1. Fico feliz que tenha gostado :3 :3 quem sabe tenha mais continuações, a história não terminou por aqui ;) hehe

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  2. Ayumi, que lindo!
    É bom ficar com essa sensação de esperança que seu texto traz no término da leitura.

    Beijos,

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