Círculo vicioso.

7.7.18



Eu olhava para a cidade iluminada aos meus pés; luzes, carros, pessoas, tudo se movia diante dos meus olhos, mas eu me recusava a ouvir.

Silêncio, janelas fechadas sem sequer deixar uma fresta.

O cigarro em mãos consumindo aos poucos a minha alma, a fumaça acariciava os meus lábios e logo desaparecia, deixando somente a imagem daquela janela fria e cheia de respingos de um céu nublado.

Nem a lua queria sorrir para mim esta noite.

As pernas cruzadas, finas e fracas, penduradas naquela cadeira febril. A pose de uma mulher que não era, o olhar carregado de algo que não sentia.

Quando foi que desaprendi a desfazer-me dessa máscara que usava com tanto esmero?

Percorri o quarto sem mover-me, procurando por você. Ainda me lembrava claramente do som da sua risada e da vida que emanava do seu corpo.

Mais uma tragada.

A cortina de fumaça me levava a fantasiar com o nosso encontro, talvez, ao diluir-se diante dos meus olhos, você estaria lá.

A fumaça se foi.

Não havia ninguém, só o cheiro forte do tabaco que impregnava o meu ser.

Levantei da cadeira. Pés frios contra o piso de madeira, desnudos, depois de tanto tempo. Girei pelo quarto como nunca antes, ou talvez, ele girasse ao meu redor, causando náuseas imaginárias de palavras que eu havia engolido.

Um passo atrás do outro, um braço flutuando entre o ar denso à minha volta. Um corpo que encontrava movimento outra vez.

Dancei.

Dancei como não havia feito há tanto tempo. O corpo, quase submerso, voltou a responder. Tinha plena certeza de que já não lembrava de como fazê-lo, mas aqui estava eu, movimentando-me em passos repetidos, uma e outra vez, a vida voltando ao meu coração aos poucos, apesar dos erros que eu havia cometido.

As luzes da cidade resplandeciam enquanto minha alma passeava por entre os carros da avenida.

Pernas, braços, mãos, corpo.

Tudo parecia estar de volta em seu lugar.

Pensamentos, emoções, sentido.

Será que eu havia voltado a ser eu?

Em todo aquele silêncio, escutei uma voz que gritava, que ansiava sair; um som, não tão familiar, retumbava em meu peito cada vez mais forte. A fumaça já não fazia parte de mim.

Cada vez mais alto, ensurdecedor.

Os dedos entre os cabelos, os olhares tímidos e aquela música inaudível que eu conhecia bem ao encontrar-me com você.

Toquei a janela, sentindo o pulsar da cidade e, aos poucos, a abri, deixando a sinfonia do caos invadir o meu apartamento e envolver-me.

E então, silêncio.

A cidade não passava de uma aglomeração e meu corpo não dançava na batida de uma música. Aquilo que retumbava no meu peito não passava de uma simples bomba sanguínea e meus pés doíam.

Fechei a janela outra vez, escutando o silêncio incômodo que preenchia o meu quarto.

Sentei novamente, procurando pelo cigarro em meus bolsos, senti sua textura, seu sabor, a ilusão de uma sensação doce, o fogo tão perto da boca, mas sem nunca tocá-la.

A fumaça havia tomado conta do meu ser mais uma vez.

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2 comentários

  1. Seu conto é intenso como a dor da sua protagonista. Talvez por isso mesmo, sentimos a sua força. A dor é uma forma de trazer todo o nosso potencial à tona, não? Não falo que ela é a melhor forma, mas não deixa de ser um modo.
    Se essa história continuasse, veria uma mulher forte no final dela.

    Beijos,

    Algumas Observações

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    1. Exatamente, Fer. Talvez essa dor mostre o quanto somos fortes e capazes de seguir adiante, apesar da existência dela.

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