A minha liberdade

14.11.18

Imagem por Cocoparisienne, sob licença Creative Commons.
Olhei para trás e senti o peso daquilo que se escondia entre os ossos das minhas costas, entre cada junta das minhas vértebras que sustentavam o meu ser. Ajeitei os ombros e o desejei mais uma vez, como o havia feito nos últimos tempos. Almejei por aquilo que arrancaram, sem piedade, quando vim parar neste lugar tão inóspito.  

O ar rarefeito a minha volta me sufocava, respirava fundo para dar vida aos pulmões, mas não era o suficiente. Estava presa entre as barras de ferro imaginárias com um poder real de ferir-me. As marcas, invisíveis em minha pele, escondiam cada cicatriz do meu sofrimento. Pisquei, confusa e sem saber onde ir, me encontrei parada diante daquele abismo febril.

Onde estavam as minhas asas?

Aquelas mesmas asas que me permitiam levantar voo; as asas que garantiam o alcance de todas as minhas metas e felicidades. Uma a uma, as penas foram arrancadas, cortadas e torturadas sem a menor piedade por aqueles que eu mais confiei.

Por onde andava a brisa suave que me ajudava a encontrar o novo amanhecer?

Enganada por uma visão turva da realidade e pela fantasia de um futuro que nunca existiu. O abismo me desafiava; mas, diferente da outras vezes, havia uma força dentro de mim, a tão conhecida covardia que impedia o meu avance por caminhos desconhecidos. O peso fantasma em minhas costas aumentava ao mesmo ritmo que meu corpo era consumido pelo fracasso.

Eu não era mais a mesma de quando havia chegado aqui, a imagem cadavérica das asas suntuosas, que um dia levei, eram um lembrete constante de uma felicidade passada. Onde exibia, no meu voo, o poder que tinha dentro do meu corpo a cada olhar que lançava para aqueles que me rodeavam.

Fechei os olhos e senti a energia que moldavam as asas ausentes de minha alma, rastros de sua silhueta permaneciam inseridas em minha mente. Dei um passo atrás do outro, aprendendo novamente a caminhar com os meus pés.

A terra sobre os meus dedos, o asfalto a esquentá-los, o abismo.

Respirei fundo, dando o passo final e logo voava em direção a você de braços abertos, o ar preenchendo-me de vida mais uma vez.




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