Resoluções 2018

1.1.19



Quando um ano começa difícil, a esperança e o sucesso parecem estar longe. O problema não era só esse, o ano não havia só começado entre choros e pensamentos depressivos, ele havia seguido uma linha, uma que começou a desenrolar-se há dois anos e oito meses atrás.

A chegada a um novo país, conviver com uma família que não era a sua e possuía uma tradição muito mais rigorosa — algo que, em alguns momentos levaria às minhas crises tão bem abafadas debaixo das cobertas —, um idioma que eu estudei com tanto esmero havia se transformado completamente, estudar em casa por conta própria com provas presenciais a cada dois meses, comida nova, corpo mudando em efeito sanfona para se acostumar com os novos químicos e corantes das grandes empresas alimentícias.

Não faça isso.

Não diga isso.

Onde você vai tão maquiada? Esse batom vermelho chama muita atenção.

Onde você pensa que vai vestida desse jeito? Troque de roupa.

Os olhos opacos, ao encarar-me no espelho, eram a sombra de um brilho que uma vez havia habitado o meu ser. Já não reconhecia a mim mesma fazia um ano. O rosto era meu, o corpo era meu, as roupas eram minhas, mas quem era aquela que refletia no espelho? Talvez o que havia restado de mim, a parte menos autêntica que me fazia lembrar da vida e da coragem que um dia irradiava do meu corpo.

Então vieram as crises, havia perdido a minha identidade, a vida não fazia sentido e nem sequer as minhas decisões eram confiáveis.

O que eu estou fazendo aqui?

Vale à pena?

Era isso mesmo o que eu queria ou me enganei esse tempo todo?

Uma e outra vez, chorei debaixo das cobertas, desejando que o mundo ao meu redor mudasse. Esperneando com braços e pernas para descarregar aquilo que carregava no meu peito, transbordando de uma tristeza irremediável que nunca havia sentido.

Eu me dava uma chance a cada semestre, mas não sabia se poderia fazê-lo mais uma vez. Talvez fosse a última...

Conversas, gritos, choros na escuridão.

Decidi que tentaria pela última vez, da mesma maneira que vinha dizendo desde que cheguei. Mas dessa vez seria verdade, não aguentaria mais viver o mesmo roteiro durante tanto tempo, não queria, não aguentaria mais uma rodada. O tempo corria. Estava muito cansada para fazer qualquer coisa e só deixei que a vida tomasse as rédeas enquanto o meu cérebro analisava todas as alternativas.

Fui, me joguei novamente naquilo que chamava de “vida normal”. Suspirei pelos corredores da faculdade, tudo se repetiria novamente. Fechava e abria os olhos, nada me importava, até tentava me aproximar das pessoas, mas estava cansada da desconfiança, do preconceito, da ignorância.

Nova matéria. Sozinha. Apresentações pessoais. Joguei tudo para o ar, sou Brasileira.

E de repente a vida começou a mudar. O sorriso, que havia abandonado o meu rosto, voltou com timidez. As gargalhadas vieram um tempo depois, eu já havia esquecido do som delas, da maneira em que meu corpo se movia ao rir tão alto quanto era possível.

Era um pedaço de luz iluminando a minha escuridão.

Então a vida pareceu voltar aos eixos, a realidade que eu conhecia tão bem ainda existia, eu não era louca ou demente, era tudo real. Ainda era possível, eu repetia a mim mesma. Talvez eu poderia, quem sabe... Viver novamente no mundo do qual eu vim, aquele que pareceu me abandonar no dia em que cheguei.

As dores ainda estavam aqui, mas as lágrimas já não caíam tanto quanto antes. Eles, de alguma forma, me lembravam que existia um mundo melhor fora das paredes que me cercavam, me mostravam uma parte do mundo a qual pertencia, mas não tinha mais acesso naquele momento. Eram a esperança de uma vida que poderia ser, mas que ainda não era.

Sem fazer nenhum esforço, eu o conheci. Seus olhos eram mais que uma porta de entrada para um mundo que eu sempre sonhei que existisse. Foi o último sinal de que uma vida melhor me esperava, se eu tentasse um pouco mais a cada dia. Tudo poderia ser realidade e a vida que havia saído do meu corpo foi trazida de volta por ele através das conversas, das risadas e projetos futuros.

As cores da criatividade fluíam a cada palavra, acrescentando um novo tom à tela de pintura que desenhávamos com nossos lábios. A cor havia pintado a escuridão.

Passo. A cada passo que eu dava me levava para outra direção, algumas lágrimas ainda escapavam de mim quando a outra realidade me atingia, mas eles me seguravam, a âncora para a realidade a qual eu queria pertencer e que, de alguma maneira, sempre havia pertencido.

Eu me tornei algo que não imaginava. Tomei a vida em meus braços antes que escorresse pelas feridas amargas de memórias recentes. Eu me converti mais uma vez em amiga, amante, artista — se é que posso me intitular dessa maneira —. Eu me tornei novamente o que havia deixado ir.

O reflexo no espelho nunca voltou a ser o mesmo, a mulher parada diante de mim havia se tornado algo mais. Um simples protótipo do que poderei ser no futuro, se continuar dando uma chance a mim mesma.


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